Guerra ou paz <br> em Moçambique

A situação política e militar em Moçambique continua tensa mas surgiram nos últimos dias sinais de apaziguamento entre o governo de Maputo e a oposição armada.

Fala-se agora em diálogo, há manifestações públicas clamando pela paz e decorre com aparente normalidade a campanha para as eleições autárquicas de 20 deste mês.

No começo desta semana, o presidente Armando Guebuza convidou o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, para um encontro em Maputo. Os contactos estarão a ser efectuados através de intermediários civis e religiosos.

A iniciativa foi divulgada através da Rádio Moçambique e um porta-voz presidencial, Edson Macuácua, afirmou que só com o diálogo se resolvem as divergências e que «não há alternativa à paz senão a paz».

Não se conhece o paradeiro de Dhlakama desde 21 de Outubro, quando o exército atacou e ocupou a sua residência em Satunjira, na província de Sofala, onde se instalara há um ano. Pensa-se que se terá refugiado, com outros dirigentes e a sua guarda armada, na zona da Gorongosa.

Há muito que a Renamo desafiava abertamente o governo da Frelimo, exigindo uma partilha do poder político e a participação nos negócios que a descoberta de importantes reservas de carvão e gás prometem.

Desde Abril que homens armados atacavam veículos de transporte de passageiros e mercadorias ao longo da estrada nacional que liga o Sul e o Norte do país, sobretudo no troço entre o rio Save e a vila de Muxúnguè, na província de Sofala, no centro, causando mortos e feridos civis. Houve igualmente emboscadas a escoltas militares e a postos de polícia e a imprensa noticiou incidentes deste tipo também em Manica e em Nampula.

Ao mesmo tempo, em Maputo, decorriam conversações entre o governo – que defende uma solução no quadro constitucional – e representantes da Renamo.

Face ao impasse que se arrastava, a Frelimo parece ter perdido a paciência e optado pela solução de força.

Guebuza e Dhlakama conhecem-se bem. Depois da independência, em 1975, após a luta de libertação nacional dirigida pela Frelimo, a Rodésia de Ian Smith e a África do Sul do «apartheid» não podiam permitir nas suas fronteiras o desenvolvimento pacífico e progressista de Moçambique, então presidido por Samora Machel. E, com o apoio do Ocidente, os racistas criaram, armaram e financiaram a Renamo, dando origem a uma guerra civil que provocou, ao longo de 16 anos, um milhão de mortos.

As negociações para pôr fim ao conflito, mediadas por religiosos italianos, foram iniciadas ainda no tempo de Machel e concluídas já depois da sua morte, quando Joaquim Chissano o substituiu. A paz foi assinada em Roma em 1992 – precisamente por Dhlakama e Guebuza, que mais tarde havia de ser eleito presidente da República.

Hoje, na avaliação da Frelimo – que derrotou a Renamo nas urnas nas eleições até agora realizadas –, o que resta dos guerrilheiros de Dhlakama (que mantiveram as armas nestas duas décadas) não é uma ameaça militar séria, até por falta de apoio internacional.

Os países vizinhos, na África Austral, já se pronunciaram de forma clara a favor do governo de Maputo e de uma solução pacífica. O presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, um velho aliado da Frelimo, condenou «os actos de violência» da Renamo e apelou à via do diálogo. Também a África do Sul e o Zimbabué avisaram a Renamo para não retomar os caminhos da guerra.

De igual modo, as potências ocidentais, cujos grupos económicos têm investido na exploração das riquezas naturais de Moçambique, só teriam a perder com a desestabilização do país.

Resta ao presidente Guebuza – que termina o mandato no próximo ano e não se pode recandidatar – garantir a paz e a unidade nacional, convencendo a Renamo a retomar o papel de partido político e a respeitar a ordem constitucional.

O primeiro teste será o das eleições locais, cuja campanha arrancou esta semana com apelos à participação dos cidadãos de forma «pacífica e ordeira», com «civismo e patriotismo».

Vão a votos duas dezenas de partidos e organizações, mas a Frelimo, que concorre nos 53 municípios, deverá conquistar a maioria das câmaras. A Renamo boicotou as eleições e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), que já governa as cidades da Beira e de Quelimane, será a segunda força política autárquica.

Vencidas a batalha da paz, fundamental, e a das autárquicas, a Frelimo no poder terá pela frente outros desafios decisivos. Como os combates contra a corrupção e o banditismo e, sobretudo, como a luta contra as crescentes desigualdades e injustiças sociais que acompanham o processo de crescimento económico de Moçambique.



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